Perdi a virgindade com um Atari

Video game sempre fez parte da minha vida, já contei isso aqui, mas é que toda vez que lembro algo do meu passado os consoles estão lá. Quase todo dia recordo de historias que marcaram minha infância ou adolescência. Uma delas foi quando perdi a virgindade com um Atari. Sim, querido leitor, minha primeira vez foi com o video game criado por Nolan Bushnell e Ted Tabney e lançado no Brasil em 1983. E a primeira vez a gente nunca esquece, deixou marcas em minha mente e minha vida.

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Tudo começou, na primeira vez que soube o que era sexo. Ouvi alguém dizer a palavra “transar”, não fazia a mínima ideia do que era aquilo. Ouvia muitas vezes na Tv e uma propaganda da época “fulando esta transando drogas. Diga não ao TÓXICO”, achei que era coisa de drogas (que naquela época chamavam de tóxico, o jeito certo de dizer é Tó-xxii-co). Mas não tinha completa certeza se a palavra transar estava ligada a pessoas que usavam entorpecentes. Com a incerteza batendo em minha mente, e como tinha vergonha de perguntar pra minha mãe, fiz o que qualquer garoto faria no meu lugar, cheguei pro meu pai e mandei bala, sem cerimonias, foi na “lata, “Pai, o que é transar?”. Meu coroa não era do tipo que sentava com calma e dizia:

– Filho, sexo é quando um homem e uma mulher se amam, e juntos entrelaçam seus corpos deixando o amor se expressar de forma corporal.

Do contrario, ele era pior que o Zanguief tentando lutar num teto de vidro. Falava na cara dura mandando quase que um “socão verbal”. As palavras eram como um pilão rodado com especial no máximo. Ao invés da coisa bonitinha, o coroa mandou o seguinte:

– Olha só, não vou te enganar moleque. Transar é quando o homem fica de pipi duro e vai pra cima da mulher. Os dois deitam pelados e ele tem que enfiar…

“Aaaaarggggg que nojo cara”, como alguém podia fazer aquilo? Meu pai troll, me mostrou o sexo em sua forma nua e crua, sem rodeios. Como toda criança, achei aquilo horrível. Lembro-me de ter dito algo como “você e minha mãe fazem isso?”.

Pra que eu fui perguntar. A resposta veio como andar no deserto em busca de água e quando você encontra um oásis, tem apenas uma bica e no lugar da esperada água refrescante veio uma resposta seca, quente como vapor queimando meus ouvidos. Fiquei mais traumatizado em imaginar meus pais naquele “negócio”. Mas fazer o que? Quem pergunta quer saber, e eu soube dessa forma, e tinha que aprender a conviver com aquilo.

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Passado alguns anos, eu já até me esquecera dos meus pais fornicando. E um belo dia estava eu, o pequeno Beto Costa Fm em casa jogando meu River Raid feliz da vida, quando meu cunhado chegou com um cartucho do Atari na mão. Não consegui ler o nome, mas é claro que se tratando de games, o pequeno Fm queria jogar.

Pedi pra ver, mas ele disse que era proibido para menores de 18 anos, “Como assim proibido?”. Até aquele momento eu não sabia que o mundo dos vídeo games tinha games proibidos, feitos somente para adultos. Mas eu estava prestes a descobrir de uma forma bem interessante.

Praticamente me expulsaram da sala para que todos pudessem ver o famoso jogo proibido para menores. Sai P da vida, afinal me tirar no meio de uma partida de River Raid era quase um sacrilégio. Com muito contragosto fui brincar no quintal com meus carrinhos.

Dias depois deixaram o cartucho solto em cima da estante, e o meu extinto de gamer bateu mais forte. Sem que ninguém visse, peguei o tal cartucho, que estava embalado em papel pardo (aquele que era usado pra encapar cadernos e livros, quem tem mais de 30 anos, lembrará). Retirei o bendito do embrulho e algo se revelou. Um cartucho totalmente preto, escrito SUPERGAME na frente, e na parte de cima em letras garrafais a palavra X-MAN.

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Pensei na hora, “O que tem de diferente nesse cartucho? É igual aos outros!”, mas, não era. Como não tinha ninguém em casa, liguei o vídeo game apressadamente. Lembro que me senti um semi-criminoso gamer mirim. Puxei o botão seletor da Tv, e fiz a geringonça ligar. A imagem começou a surgir naquele zoom característico das Tv’s da época. Me enfiei atrás dela para mudar a Chave Comutadora (Alguns Chamam de Chave Seletora ou Chave A+B), para COMPUTER, coloquei no canal 3, inseri o cartucho no Atari e liguei o vídeo game.

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De cara, aparece uma mulher quadrada andando pelada na tela, logo atrás um homem pelado com o Pipi Erectus e no final algo que achei na hora ser um caranguejo seguindo os dois. Meu cérebro demorou pra processar aquela informação, as crianças daquela época estavam acostumadas com games de avião, tiro em alienígenas, correr atrás do ladrão, ou voltar pra casa com um garoto chamado Bobby.

O jogo prosseguiu, aparecendo em seguida um labirinto. Logo percebi o objetivo, eu teria que guiar o Homem Pipi Erectus até uma porta no meio da tela. Uma tesoura sambava de um lado para o outro entre as paredes do labirinto perseguindo o Pipi Erectus.

Comecei a jogar e tentar burlar a tesoura que vinha pra cima de mim desenfreada fazendo os movimentos de corte. Morri algumas vezes (ou fui cortado algumas vezes), eu estava na fase de aprendizado do game, isso era normal. Mas depois de um tempo peguei a manha do jogo e minha mão segurando o manche com firmeza, (é o manche do controle mente suja, eu era um garoto de uns 8 anos), consegui chegar na porta. E foi nesse momento que minha vida mudou.

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A cena em seguida foi algo que marcaria pra sempre minha mente. A mulher do inicio estava deitada de pernas abertas, e eu no controle do Pipi Erectus tinha que fazer o famoso “Vuco Vuco”, com ela. Não entendi como funcionava a “coisa” (eu nunca tinha feito nada e nem sabia como era o “lance”), mas em poucos segundo percebi que tinha que balançar o controle de um lado pro outro.

Freneticamente, comecei aquele balanço cadenciado, e percebi que a cada balançada no controle, o Pipi Erectus chegava mais perto da mulher, e uma barrinha crescia na parte de baixo da tela. O objetivo era claro, fazer a barrinha chegar ao final. À medida que balançava o controle com mais rapidez e força, a barrinha subia mais rápido, e eu continuei naquele esquema doido, pensando “vai chega, chega, cheeeeggaaaaa”.

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Quando a barrinha chegou ao final, eu já estava suado de tanto balançar o controle (pensou de novo em sujeira né?). Ouvi um som de explosão, e a tela começou a piscar, sumiram os personagens e voltei novamente para o labirinto.

Achei aquilo sensacional, passei de fase com o Pipi Erectus e outro labirinto começou. Então joguei o segundo labirinto e consegui chegar na porta de novo, e cada vez que chegava lá, a mulher estava em outra posição e eu tinha que fazer a barrinha chegar ao final novamente com aquele balanço frenético das mãos. Lembro que passei por uns três labirintos e morri.

Depois de um tempo jogando, fui pego no flagra. Meu pai chegou e me viu sentado com o controle no meio das pernas, balançado o negocio loucamente para fazer o Pipi Erectus encher a barrinha mais uma vez. Na hora ele me deu uma bela bronca e disse que não podia jogar aquilo e que ia me tomar o vídeo game se eu jogasse de novo.

Não entendi bem qual a razão do game ser tão proibido assim. Não tinha nada de mais, apenas um labirinto, uma tesoura e uma porta. A única coisa que achava estranho era o casal quadrado pelado, mas isso passava batido na minha mente de 8 anos.

Dias depois, meu pai estava conversando com os amigos sobre o jogo safado que o genro tinha levado pra casa e me pegou com a “mão na botija”, jogando. Os colegas dele me davam tapinhas nas costas, bagunçavam meus cabelos com as mãos e soltavam frases do tipo, “Ai garoto, agora você sabe o que é bom”, “E ai Betinho, levou a mulher nas nuvens?” e “Já esta descabelando o palhaço moleque?”.

Sinceramente não entendia o porquê daquilo tudo, mas resolvi seguir o que meu pai falara e larguei o game de mão e voltei pro meu River Raid, Moon Patrol, Bobby Is Going Home e afins…

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Anos mais tarde quando achei um baú com revistas de mulher pelada do meu pai, embaixo da cama, entendi o que o jogo significava. Percebi que estava transando virtualmente na pele do Pipi Erectus, com a mulher quadrada. A ficha caiu, e naquele momento eu pensei “Perdi a virgindade com um Atari”. Mas eu nem ligava estava era ligado nos contos de fórum das revistas. Nas fotonovelas que me ensinaram o que o era transar e como isso entrava no jogo X-MAN, comecei a rir sozinho.

O fato é que aquele jogo de Atari marcou minha mente e minha vida. Na época não dei muita importância para o fato de minha primeira vez ser com o Atari, mas hoje pensando é algo extremamente relevante. A mulher pelada quadrada foi a primeira da minha vida, e o sexo virtual fez parte da minha vida em uma época que sexo virtual nem existia.

Hoje percebo que a maldade na minha época de criança, era coisa de mente adulta. Eu não fazia a mínima ideia do que estava rolando naquela sala, naquele momento em que meu pai me pegou no flagra, com a mão fechada no controle entre as pernas balançando freneticamente para que o Pipi Erectus chegasse ao seu destino final.

Depois disso, vários games passaram pela minha vida, inclusive games com o tema sexo. Mas nunca vou me esquecer da mulher pelada e quadrada, com a boca abrindo e fechando, implorava pelas minhas balançadas no controle, esperando explodir no final da barrinha para assim me levar para o próximo nível, a próxima transa, o próximo labirinto.

Ela sim foi a primeira mulher da minha vida e estará guardada nos meus sonhos e na minha mente para sempre, afinal de contas, a primeira vez a gente nunca esquece.

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  • huahuahuahau … infância né !
    Me lembrei do Felix Jr. vendo a Sargento Calhoun (Tamora Jean Calhoun) e adimirando uma mulher em HD , heheheheheh … ele tb devia estar acostumado só com 8bits ! hauhauhauhauh.
    sorte ai !

    • Caio Maiochi o cara. Rapaz boa lembrança do Sgt Felix. Mas só quem viveu a época dos 8 bits pixelados e teve uma experiência como essa, sabe o que é a primeira vez gamer rsrsrsrsrs.

      Grande abraço meu fiii!

  • Texto sensacional!! Nunca vi esse jogo na época de Atari (meus pais devem ter barrado bem a entrada dele em nossa casa) e só fui conhecer depois por emuladores.

    • Esse jogo apareceu na minha vida, exatamente como descrevi no texto. Engraçado que na época eu não tinha a malícia de saber o que estava acontecendo rsrsrsrrrs

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